Vieses Cognitivos X Comunicação

Vieses Cognitivos X Comunicação

Vieses Cognitivos X Comunicação

Tempo de Leitura: 04 minutos

Imagine a seguinte cena: você chega à beira da calçada, olha para os lados da rua, retira uma calculadora do bolso, relembra uma fórmula do ensino médio e faz o cálculo considerando a distância e a velocidade aproximada do veículo mais próximo antes de atravessar. Com o resultado desse elaborado (para a situação) cálculo, você atravessa a rua com segurança.

Ninguém faz isso, e nem precisamos. Nosso cérebro executa esses cálculos automaticamente e nos manda uma resposta simples: “agora dá pra atravessar”.

E não é somente para atravessar a rua que utilizamos respostas rápidas e eficazes assim. No dia-a-dia nos deparamos com diversas situações que, se fôssemos parar para pensar, levaríamos muito tempo analisando dados, possibilidades e suposições para chegar numa resposta segura.

Para simplificar nossa vida e, definitivamente, torná-la viável, nosso cérebro utiliza de atalhos de julgamentos como uma alternativa satisfatória para apresentar uma solução diante de questões complexas (ou nem tanto).

Esses atalhos também são chamados de vieses cognitivos, e são classificados por estudos psicológicos. Veja alguns exemplos:

– Viés de confirmação: é uma predisposição em investigar e interpretar informações que confirmem uma ideia preconcebida. Ou seja, o indivíduo busca confirmar, com os novos dados, o que ele já acredita. De forma simples: é a busca por confirmar suas convicções.

– Viés de falso consenso: é a tendência em acreditar que os próprios hábitos, crenças, opiniões, gostos, etc. são hegemônicos na sociedade. Ou seja, o indivíduo acredita que sua forma de ser, pensar e se comportar é mais comum do que, algumas vezes, realmente é.

– Efeito halo: é a extensão da percepção de uma característica para outras que não tenham relação direta. Ou seja, se temos uma boa primeira impressão de uma pessoa, produto ou empresa, temos a tendência de generalizar essa boa impressão para outras características que ainda não conhecemos. Em marketing, os(as) “garotos(as)-propagandas” são utilizadas para estender suas características aos produtos/serviços oferecidos.

E por que o cérebro age assim?

A resposta é: economia (do grego “administração doméstica”). Como assim? Assim… o cérebro administra os recursos cognitivos (mentais) de que dispõe. Então, para não desperdiçar energia mental, ele toma decisões rápidas. Até porque se você tivesse que analisar detalhadamente todos os dados do ambiente (e do seu corpo) a todo momento, possivelmente você não conseguiria terminar nem seu café da manhã, de tantas hipóteses que teria que avaliar nas decisões mais simples, como: açúcar ou adoçante? mamão ou banana? ler as mensagens do grupo de trabalho agora ou depois? qual roupa usar hoje? etc.

Porém, essas respostas rápidas, embora sejam práticas e satisfatórias, nem sempre são as mais adequadas. Costumamos confiar nas respostas que nosso cérebro nos dá (afinal, são milhões de anos de evolução, ele deve saber o que está fazendo). Mas algumas decisões do cotidiano precisam de uma reavaliação mais consciente, mais pormenorizada dos dados que recebemos. É nessa hora que precisamos pensar sobre o que pensamos (metacognição), desligar o “automático” do cérebro assumir o comando da decisão: “Com licença, cérebro. Deixa-me pensar melhor sobre isso”.

Certo…e em qual área da vida um atalho de julgamento pode ser um problema prático?

Na Comunicação!

As informações que recebemos no processo de comunicação passam por esses julgamentos. E essas informações não são apenas verbais, ou seja, não são só palavras e frases (escritas ou faladas). Recebemos informações não-verbais durante a comunicação: o tom de voz do nosso interlocutor, seus gestos, postura, cargo, experiência, lugar de fala, etc. E isso tudo influencia (e muito!) a forma como interpretamos a mensagem como um todo. Acontece que toda essa mensagem passa por nossos julgamentos e, consequentemente, pelos atalhos de julgamentos (vieses cognitivos). Assim, quando vimos um articulado e carismático diretor falar, podemos considerar fantástica suas explanações e conclusões e ao mesmo tempo desconsiderar a mesma fala se vinda de um tímido e desajeitado estagiário. Ou ainda, dar crédito às informações vagas daqueles que simpatizam com nossas ideias em seus discursos e negligenciar dados evidentes daqueles que são “do contra” (a nosso ver), ou seja, àqueles que afirmam coisas que discordamos.

Então o que fazer?

Diante de decisões importantes, que você julgue ser necessário a isenção dos vieses cognitivos, você pode reavaliar suas avaliações primárias. Isso quer dizer rever suas interpretações das informações recebidas. Existem ferramentas (como a Escada das Inferências) que estimulam o pensamento crítico em relação às suas percepções e ajudam a evitar a influência dos atalhos de julgamentos. Vale a pena conhecer!

Autor: Rodrigo Quito – Psicólogo, psicoterapeuta, facilitador de processos de desenvolvimento na Vilon Desenvolvimento Criativo.

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